quarta-feira, 21 de julho de 2021

Racismo explica 80% das causas de morte de negros no país - Portal Geledés

Entrevista especial com Rodrigo Leandro de Moura

11/01/2017 em Violência Racial e Policial Tempo de leitura: 6 mins read

O racismo está influenciando esse diferencial de taxa de homicídios. Não conseguimos uma metodologia que seja capaz de quantificar exatamente qual é este percentual, mas cremos, com certeza, que boa parte desse diferencial seja devido ao racismo”, afirma o pesquisador


O percentual de negros assassinados no Brasil é 132% maior do que o de brancos, revela pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea, intitulada Vidas Perdidas e Racismo no Brasil. Embora as razões para explicar esses dados não estejam totalmente claras, “20% da causa da morte de negros” pode ser atribuída a “questões socioeconômicas”, como diferenças em relação a emprego, moradia, estudo e renda do trabalhador, diz Rodrigo Leandro de Moura, um dos autores do estudo realizado pelo Ipea, em entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail.

Os outros 80%, esclarece, podem ser explicados por uma “variável socioeconômica que não observamos, mas, apesar de não conseguirmos imaginar qual seja, pensamos que um componente importante para explicar esse dado seja o racismo”. E acrescenta: “O que reforça a tese de racismo é que as características socioeconômicas podem ser afetadas por ele. Então, por exemplo, o negro sofre discriminação no mercado de trabalho, pode ter mais dificuldade de ter acesso a postos de trabalho qualificados, pode sofrer bloqueio de oportunidades de seu crescimento profissional e também pode ter o que chamamos de desigualdade de oportunidades e, por causa disso, sofrer tratamento desigual no que se refere às oportunidades no mercado de trabalho”.
Rodrigo Leandro de Moura é graduado em Economia pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – FEA-RP/USP, e mestre e doutor em Economia pela Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas – EPGE/FGV-RJ. Atualmente é professor e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia – IBRE/FGV-RJ.

Confira a entrevista.

Como foi realizada a pesquisa que demonstra maior violência contra os negros no Brasil?

Rodrigo Leandro de Moura – Essa pesquisa surgiu do nosso interesse de avaliar se havia uma discriminação contra negros ocorrendo em relação aos casos de homicídios registrados no país. Procuramos avaliar inicialmente a taxa de mortes por homicídios de negros e não negros e verificamos uma discrepância grande entre os dados. No que se refere aos resultados por estados, também verificamos que há, principalmente no Nordeste, Norte e Centro-Oeste, uma discrepância grande entre a taxa de homicídios de negros e não negros.
A partir dessas informações, calculamos, através de uma metodologia de outro artigo, a perda de expectativa de vida do negro ao nascer, em razão da violência.

Por que o número de negros assassinados no Brasil é 132% maior do que o de brancos? Quais as causas desses assassinatos e que atores estão envolvidos nestas mortes?

Rodrigo Leandro de Moura – Visto que observamos esse diferencial muito grande entre homicídios de brancos e negros, calculamos a diferença da taxa de homicídios entre negros e não negros e procuramos avaliar, através de um modelo estatístico, qual percentual desse resultado poderia ser explicado por características socioeconômicas – quando falo de características socioeconômicas, refiro-me a diferenças de educação, diferenças demográficas, diferença nas condições do mercado de trabalho, como taxa de desemprego,renda do trabalhador, diferenças de tipo de moradia, densidade domiciliar, etc. A partir desses dados, verificamos que as características socioeconômicas explicavam somente 20% da diferença da taxa de homicídios. Ou seja, 20% da causa da morte de negros pode ser atribuída a essas principais características socioeconômicas. Os outros 80% correspondem a quê? Pensamos que esse resultado se explica através de características socioeconômicas que não observamos.
Você tem ideia de quais são essas características ou é impossível identificá-las por enquanto? Qual o significado desses 80%?

Rodrigo Leandro de Moura – Não. Logicamente estamos restritos à base de dados: utilizamos os dados do Censo. É difícil imaginar outras variáveis socioeconômicas demográficas que não tenham alguma relação no modelo, e também não conseguimos identificar novas características, porque esse exercício foi feito a partir das taxas de homicídio por município. Não conseguimos identificar, por exemplo, que tipo de característica específica, em cada município, pode estar associada ao racismo e que pode, de alguma maneira, afetar o resultado.

O que quero dizer com isso? Dentro desses 80% pode ter uma variável socioeconômica que não observamos, mas apesar de não conseguirmos imaginar qual seja, pensamos que um componente importante para explicar esse dado seja o racismo. O que reforça a tese de racismo é que as características socioeconômicas podem ser afetadas por ele. Então, por exemplo, o negro sofre discriminação no mercado de trabalho, pode ter mais dificuldade de ter acesso a postos de trabalho qualificados, pode sofrer bloqueio de oportunidades de seu crescimento profissional e também pode ter o que chamamos de desigualdade de oportunidades e, por causa disso, sofrer tratamento desigual no que se refere às oportunidades no mercado de trabalho.
O racismo cria determinados estereótipos negativos que acabam afetando a autoestima de crianças e jovens negros e, aí, logicamente, influenciam negativamente sobre eles. De modo geral, acreditamos que o racismo influencia esse diferencial de taxa de homicídios. Não conseguimos uma metodologia que consiga quantificar exatamente qual é este percentual, mas cremos, com certeza, que boa parte desse diferencial seja devido ao racismo.
Como a violência se manifesta entre negros e não negros no país?

Rodrigo Leandro de Moura – A violência gera uma perda de expectativa de vida. Avaliamos a violência em alguns aspectos: homicídios, acidentes de trânsito, suicídios, etc. A partir disso, observamos que a maior perda da expectativa de vida é para homens. Verificamos também que os homens não negros morrem mais por conta de acidentes de trânsito do que por homicídios, enquanto os negros sofrem mais homicídios.
Diante desses dados, entramos na questão que está relacionada ao racismo institucional, ou seja, a uma forma particular de racismo nas instituições, que envolve o funcionamento da polícia. Essas organizações constituem só um segmento, uma ponta do Sistema de Justiça Criminal, que está mais perto do cidadão. Então, é o policial que, em geral, aborda primeiro o criminoso e deveria garantir os direitos civis, os direitos humanos, enfim, a questão da isonomia no tratamento ao cidadão. Entretanto, a partir dos dados do Censo e da Pnad de 2009, observamos que, quanto ao percentual da população que sofreu agressão física em 2009, 1,8% era de negros e 1,3% era de não negros. Entre as vítimas que não procuraram a polícia, 61,8% eram negros e 38,2% eram não negros. Então, o que isso mostra? Que entre aqueles que não procuraram a polícia, ou seja, não procuraram porque não acreditavam, ou porque tinham medo dela, não o fizeram por conta do racismo com que o cidadão é tratado pela polícia.

Não descarto também outra possibilidade, que não estaria ligada ao racismo institucional, mas à questão do criminoso, que na maior parte das vezes é negro. Então, haveria um caso de racismo de negro contra negro ou, então, seria mais um problema social, ou seja, como o negro está mais envolvido com o crime, então ele tende a matar mais negros. Acredito mais na hipótese de racismo institucional.
Há alguma característica específica para o índice de homicídios ser maior no Norte, Nordeste e Centro-Oeste?

Rodrigo Leandro de Moura – Aí volta a questão das características socioeconômicas. Esperávamos que as diferenças socioeconômicas explicassem esse dado, só que não explicaram.

Esse dado de 80% relacionado ao racismo se manifesta, portanto, no Nordeste, em Alagoas, Pernambuco, Sergipe, também no Pará, no Espírito Santo, em alguns estados do Centro-Oeste, onde parece que o racismo é mais alto.

Como avalia as políticas públicas dos últimos anos em relação aos negros, como a inclusão nas universidades por cotas? Ações como essa mudam a mentalidade acerca do racismo?

Rodrigo Leandro de Moura – As políticas de ação afirmativa, isoladamente, não resolvem o problema. Existem evidências favoráveis em relação às políticas de ação afirmativa, por exemplo, política de cota por raça nas Universidades. Alguns estudos têm mostrado que o desempenho do cotista na Universidade não tem sido estatisticamente pior do que o não cotista. Portanto, a proposta é boa para diminuir a desigualdade e garantir oportunidades.
Entretanto, também é necessário melhorar a educação básica na base, porque senão se incorre em outro tipo de discriminação: contra os brancos pobres. As políticas de ação afirmativa deveriam complementar a políticas de educação básica, de qualidade. Você tem que dar uma educação boa desde a primeira infância. Depois de niveladas as características socioeconômicas, a >política de ação afirmativa seria menos necessária. O que o nosso estudo mostra é que se você eliminar toda a diferença das características socioeconômicas, a taxa de mortalidade por homicídios reduziria somente 20%.

Howard Zinn - História de pessoas nos Estados Unidos

Howard Zinn (Nova Iorque, 24 de agosto de 1922  Santa Mônica, 27 de janeiro de 2010) foi um historiador, cientista político e ativista e dramaturgo estadunidense, mais conhecido como autor do livro People's History of the United States , que vendeu mais de um milhão de cópias desde que foi lançado em 1980.
Ele havia sido uma figura proeminente dos movimentos pacifista, antibelicista, pelo reconhecimento de direitos e liberdades civis desde os anos 1960. Autoproclamado anarquista em diversas ocasiões, Zinn reconhecia seu pensamento e obra em profunda relação com esta filosofia política. Durante as últimas décadas, participou da dissidência política estadunidense, tecendo profundas críticas às instituições capitalistas e aos estados nacionais.[1]

Zinn faleceu em janeiro de 2010, aos 87 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco, durante uma viagem à cidade de Santa Mônica, na Califórnia.

Referências na cultura popular

Em 1997, A People's History of the United States recebeu destaque na cultura popular ao ser citado no filme Good Will Hunting. O personagem principal do filme, interpretado por Matt Damon, enaltece o livro, persuadindo o personagem de Robin Williams a lê-lo. Damon, que co-escreveu o roteiro do filme com Ben Affleck, foi vizinho da família Zinn na infância. Mais tarde, Damon narrou Howard Zinn: You Can't Be Neutral on a Moving Train, um documentário de 2004 sobre Zinn, e produziu uma versão televisiva do livro, intitulada The People Speak e apresentada no History Channel em 2009.

A canção "Down", do álbum Lost Dogs, do Pearl Jam é baseado na amizade dos membros da banda com Zinn. Anteriormente, A People's History of the United States havia servido de inspiração para Nebraska, álbum lançado em 1982 pelo cantor e compositor Bruce Springsteen.




Entrevista com Emília Viotti da Costa

 

Emília Viotti da Costa

Para historiadora, Brasil enfrenta o paradoxo de ser um país que reconhece o papel do escravo na construção da sociedade, mas que discrimina seus descendentes"

(3/4/2000)

Brancos e negros inventaram uma África, diz Viotti

Nome: Emília Viotti da Costa

Cargo: professora emérita de História da América Latina da Universidade de Yale (EUA), e professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (Universidade de São Paulo)

Livros: "Da Senzala à Colônia" (Unesp), "Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue" (Companhia das Letras), entre outros








SYLVIA COLOMBO

Editora interina de Especiais

A historiadora Emília Viotti da Costa considera que, no Brasil, hoje, "invocar a tradição e a cultura tornou-se uma forma de resistência" diante do impacto da globalização. Para ela, as manifestações contra a comemoração dos 500 anos do Descobrimento "obrigam todos os brasileiros a repensar a história do passado e do presente de maneira a torná-la mais inclusiva.

" Estudiosa do tema da escravidão, Emília Viotti lecionou no Departamento de História da Universidade de São Paulo entre 64 e 69, quando foi aposentada pelo AI-5 (Ato Institucional do governo militar que endureceu o regime). Na ocasião, seguiu para os Estados Unidos, onde é professora emérita de história da América Latina na Universidade de Yale (EUA). Em 1999, Emília Viotti recebeu o título de professora emérita na USP.

É autora do livro "Da Senzala à Colônia", importante estudo sobre a transição do trabalho escravo para o livre na região cafeeira de São Paulo, e "Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue", sobre a rebelião dos escravos em Demerara, na Guiana Inglesa, no século 19 -em que analisa o fato histórico enfocando tanto a micro como a macro-história.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista que Emília Viotti concedeu à Folha, por e-mail, de sua casa, nos EUA.

Folha - Recentemente, a sociedade portuguesa mobilizou-se pela causa de Timor Leste, tem acolhido relativamente bem a entrada de refugiados políticos de Angola, e a comemoração dos 500 anos do Brasil recebe a atenção dos órgãos responsáveis pela cultura naquele país. A sra. acredita que Portugal vê a efeméride dos Descobrimentos como oportunidade para se redimir dos danos causados pela colonização?

Emília Viotti - As relações entre Portugal e suas ex-colônias mudaram desde a queda de Salazar (1889-1970). Nada mais natural que tenha havido uma revisão do período colonial. Hoje, em toda a Europa, as relações entre as ex-metrópoles e colônias são distintas e há interesse de ambos os lados na construção de novos laços.

A criação do Mercado Comum Europeu tem exercido uma poderosa atração entre os povos das ex-colônias, provocando uma grande imigração com destino às antigas metrópoles.

Portugal oferece ao Brasil uma porta para a Comunidade Européia e o Brasil representa para Portugal um grande mercado. Isso leva, de forma inevitável, a um processo de reexame do passado. Se esse reexame levará à "conscientização histórica" de Portugal em relação aos danos causados pela colonização é o que veremos. Agora, a tendência é a reabilitação da idéia da comunidade de língua portuguesa, defendida no passado por Gilberto Freyre.

Folha - Como se dá, hoje, o processo de miscigenação e aculturamento dos povos negros na América Latina?

Viotti - Na América Latina, os negros foram introduzidos como produto da escravidão: Colômbia, Brasil, Cuba, Peru, México ou Argentina. Isso deixou marcas profundas nessas sociedades. Um dos seus legados mais sinistros foi o preconceito racial contra o negro, que até hoje persiste e dificulta sua integração na sociedade. As crises econômicas que afetaram o Brasil no século 20 e a política elitista, marcada frequentemente por um racismo disfarçado, contribuíram para que se mantivessem as desigualdades e alimentaram a discriminação.

Hoje, enfrentamos o paradoxo de um país que reconhece de várias maneiras a importância do negro na constituição da sua cultura e sociedade, mas que continua a discriminá-lo.

Folha - Como se mantém a identidade cultural africana, sobrevivente da diáspora causada pela escravidão, num cenário de globalização?

Viotti - O que se tem visto por toda parte é o que Hobsbawn chamou de "a invenção da tradição". Os povos africanos de origens diversas, que pertenceram no passado a grupos étnicos distintos, com culturas e religiões diversas, foram transportados para a América, onde foram transformados em escravos. No Novo Mundo, eles criaram aos poucos uma nova identidade, que transcendeu muitas vezes as diferenças étnicas que originalmente os dividiam.

Brancos e negros, cada um à sua maneira e por motivos diversos, inventaram uma África. Hoje, com as novas possibilidades oferecidas pela cultura de massa e pela mídia, multiplicaram-se os grupos que invocam a tradição africana. Invocar a tradição e a cultura tornou-se uma forma de resistência. Ultimamente se tem visto, por toda parte, um renovado interesse pela cultura.

Por toda parte, os grupos que se sentiram excluídos tentam criar um espaço próprio. Às tendências globalizadoras, que supostamente pretendem uniformizar a experiência humana, eles opõem suas "tradições". Dessa forma, globalização e multiculturalismo não se excluem. São os dois lados de uma mesma moeda.

Folha - Como a sra. vê as manifestações que repudiam a idéia de comemorar os 500 anos do Descobrimento do Brasil?

Viotti - Nos últimos anos, a indústria cultural tem promovido inúmeros eventos. Tudo é motivo para comemorações, congressos, publicação de livros. Os historiadores são os primeiros a ser chamados a dar sua contribuição.

Portanto, é de se esperar que os 500 anos da "descoberta do Brasil" sejam comemorados da mesma maneira como o foram a Abolição, a Proclamação da República e outras datas que têm sido consagradas como importantes marcos da história nacional.

É muito significativo que vários grupos estejam se mobilizando para contestar a história oficial, que tem, quando muito, adotado uma atitude condescendente para com negros, índios, mulheres e outros grupos que se sentem excluídos dessa versão. Sua mobilização obriga todos os brasileiros a repensar a história do passado e do presente de maneira a torná-la mais inclusiva.

Folha - A América Latina teve, guardadas as especificidades regionais, um passado colonial comum e ciclos políticos semelhantes: liberalismo, populismo, ditaduras militares. A sra. acredita que esse destino comum é uma tendência que continuará existindo?

Viotti - De fato existem certos paralelismos interessantes na história dos países da América Latina, mas há também importantes diferenças. Isso significa que, apesar de terem partilhado uma posição semelhante no mercado internacional, suas peculiaridades ecológicas, demográficas, seus diferentes recursos naturais e graus de desenvolvimento, suas várias culturas imprimiram um curso diverso a sua história política.

Como já tive ocasião de afirmar várias vezes, os agentes históricos não são apenas produtos de uma história que já está predeterminada, mas são agentes de uma história que, ao mesmo tempo, os produz e é produzida por eles.

Se não fosse assim, como seria possível explicar a existência até hoje de uma Cuba socialista? Como explicar revoluções que abalaram a América Central nos anos 70/80 na Nicarágua, El Salvador e Guatemala, depois da onda de repressão que desabou sobre a América do Sul nos anos 60/70?

Uma abordagem economicista e mecanicista leva a políticas equivocadas. Quando se imagina que a história já está predeterminada, perdem-se de vista os caminhos possíveis. Isso leva a um conformismo e a uma passividade perigosa. Tão perigosa quanto a visão voluntarista oposta, que privilegia os agentes históricos e ignora as forças que impõem limitações a sua vontade de ação.

A idéia de que a história da América Latina passou por estágios sucessivos -e que agora se encaminha para a social-democracia- tem sido corretamente contestada pelos historiadores, que apontam para as recorrências históricas de ditaduras militares e civis, de táticas populistas ou ainda de práticas discursivas liberais.

https://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/entre_10.htm

Historia das Crianças no Brasil

 

Resumo

Resultado de um cruzamento de olhares sobre o tema abrangente da infância na história brasileira, reúne historiadores, sociólogos e educadores sensíveis à consciência que vem aflorando sobre a condição das crianças e, sobretudo, atentos ao legado do passado na situação atual. Tais pesquisadores empenham-se em transformar as crianças em sujeitos históricos neste livro que trata dos pequenos viajantes nas embarcações do século XVI, dos curumins catequizados pelos jesuítas, das crianças escravas, da infância de ricos e pobres, dos garotos participantes da guerra do Paraguai, dos pequenos operários, dos menores criminosos dos primórdios da industrialização, de doces memórias da infância de brincadeiras, de crianças carentes e exploradas como mão-de-obra barata. Todos personagens que iluminam a história e constróem o presente.




Este livro pode ser lido online no site abaixo.
https://www.pensecomigo.com.br/livro-historia-das-criancas-no-brasil-pdf-mary-del-priore/

terça-feira, 20 de julho de 2021

O genocídio do negro brasileiro: uma (re)leitura para espaços-tempos de pandemia

 

“Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo” Milton Santos







O transcorrer do mês de maio no Brasil, nos impele enquanto sujeitos negros e negras, a refletir criticamente acerca de nossas trajetórias, no contexto denominado de pós-abolição, segundo o qual, afirma um dos autores clássicos da sociologia brasileira, “o negro permaneceu sempre condenado a um mundo que não se organizou para tratá-lo como ser humano e como “igual” (FERNANDES, 1972 p.15)[i]. Diante desta questão, bem como no contexto da crise pandêmica (COVID-19), escancara-se mais uma vez, as referidas condições de reprodução da existência e sujeição da população negra no país, diante de sua posição de ser um objeto visto por um olhar tortuoso, conforme problematizou o geógrafo negro baiano Milton Santos (1926-2011). Tais elementos, nos instigam a uma (re)leitura – no sentido de produzir uma interpretação e de indicar uma leitura, sobretudo às gerações mais jovens, que vivem desde a formação territorial brasileira – no âmbito de um trabalho de grande relevância. Trata-se da obra O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado do intelectual, artista, político negro e pan-africanista Abdias Nascimento (1914-2011), sob a premissa de sua atualidade.

O referido trabalho de Abdias Nascimento, reúne XV capítulos em tons ensaísticos e propositivos. Sob o título original Racial Democracy in Brazil: Myth or Reality, o texto foi escrito em seu momento de exílio na Nigéria, como uma contribuição ao Colóquio do II Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas (Festac) realizado em Lagos, entre janeiro e fevereiro de 1977. Porém, o mesmo foi rejeitado pelas autoridades oficiais da Nigéria e do Brasil representadas no Festac’77. Ainda assim, o trabalho fora editado pelo Departamento de Línguas e Literatura Africanas da Universidade de Ifé, onde Abdias atuava como professor convidado. O trabalho foi mimeografado e distribuído aos membros do Colóquio-Festac’77. Abdias nunca obteve uma resposta formal das autoridades acerca da rejeição de seu texto, entretanto a repressão não foi suficiente para impedir a discussão do mesmo e para o reconhecimento de sua relevância. No Brasil, sua primeira edição data de 1978 pela Editora Paz & Terra, com prefácios do sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) e de Wole Soynka dramaturgo-intelectual nigeriano, Prêmio Nobel em Literatura (1986). Nesta breve reflexão utilizamos a versão mais recente, publicada no Brasil pela Editora Perspectiva[ii].

Nossa reflexão sobre a obra O Genocídio deseja enfatizar três aspectos, sem deixar de reconhecer sua profundidade e diversidade. São eles: a) a construção de uma matriz epistêmica crítica que tem no seu enlace a desconstrução de mitos; b) a interpretação da formação social brasileira e o estilo racista que impacta de maneira singular o ser negro; c) os horizontes de sentido que Abdias Nascimento recupera do papel da resistência político-cultural afro-brasileira e desdobra na reconstrução de um pensamento em ação, o qual em primeira e última instância, reivindica uma nova sociedade, multirracial e multicultural no Brasil. Como preambulo para adentrar nestes aspectos, é mister colocar em pauta a noção de genocídio enfatizada pelo autor. Nesse quesito, uma primeira associação no contexto dos debates contemporâneos, permite-nos associar genocídio e necropolítica conforme a perspectiva do filósofo camaronês Achille Mbembe (2006)[iii].

Mbembe (2006), desenvolve seu raciocínio, através da crítica aos dispositivos de poder analisados por Michel Foucault (1926-1984), sobretudo no que concerne as noções de soberania e biopoder, relações que governam o “direito de vida e de morte” dos indivíduos às populações no âmbito do Estado moderno. Para Mbembe (2006), no mundo pós-colonial, na modernidade tardia e até mesmo para setores da população subalternizada no primeiro mundo, vigora algo além dos dispositivos de controle e reprodução da população enquanto espécie (o biopoder). Impõe-se nesses espaços-tempos, uma política da morte, de extermínio da população, através do uso deliberado da violência e sujeição dos governados, esta necrose do poder – necropolítica, se funda desde a escravidão e a racialização-racismo das populações nos espaços-tempos citados, ela cria mundos de morte. Portanto, tal compreensão tem se tornado fundamental para entender e denunciar o genocídio da população negra no Brasil contemporâneo, sobretudo, a juventude periférica, as vítimas do feminicídio e transfobia, as comunidades quilombolas.
Cabe destacar, que elementos como: a denúncia da perversidade da escravidão no Brasil, nas Américas e em África; bem como o caráter sistemático da exploração/violação da mulher negra, dentre outros aspectos, permitem identificar uma convergência entre linha interpretativa da necropolítica e a noção de genocídio conforme Nascimento (2016[1977]). Por outro lado, necropoder também diz respeito, a coisificação do ser humano no capitalismo, traduzida na sua mercantilização descartável, o que conduz as populações ao estado de extrema precarização, invisibilidade e não reconhecimento de sua existência, o que Mbembe (2006) arroga como um mundo de mortos-viventes. Essa segunda linha de raciocínio acerca da necropolítica, encontra novamente relação com a concepção de genocídio de Abdias Nascimento, a qual abrange um indicioso, sistemático e silencioso processo de sujeição sociocultural, no qual a população negra do Brasil “pós-abolição” foi forçada a subalternizar-se. Como consequência, tem-se o seu embranquecimento como a única possibilidade de reprodução de sua existência nos quadros da sociedade. Deste modo, o ser negro é impelido a negar a si próprio, lhe é negada a sua autodefinição, pois impõe-se a perversidade do embranquecer, sendo este o caráter fundamental do genocídio a que o autor se refere. Trata-se de um extermínio sociocultural que se coaduna com a violência física e material que abate os seres negros do país.

a) A matriz epistêmica de desconstrução de Mitos

Para chegar à conclusão mencionada, Abdias Nascimento em O Genocídio do Negro Brasileiro, opera, em nosso olhar, uma matriz epistêmica de desconstrução de Mitos, pois o propósito central de sua obra, volta-se para a desconstrução do conceito de democracia racial, que por diferentes caminhos perpetrou-se na sociedade brasileira, refletindo-se em uma suposta relação concreta de convivência harmoniosa entre negros e brancos no país. Subjacente a essa ideia central, busca interrogar e desconstruir mitos que lhe estão atrelados, tais como: certa benevolência dos senhores e humanidade existente na escravidão latino-americana, sob a influência cristã (católica e protestante); as tendências ao intercasamento entre negros e brancos como suposição de relações horizontais entre ambos; a influência da cultura africana e de seus descendentes como sinônimo de ausência de preconceito racial no Brasil. Todos esses elementos, se revelam para o autor, conforme a lógica da desconstrução como: “uma extremamente perigosa mística racista, cujo objetivo é o desaparecimento inapelável do descendente africano, tanto física, quanto espiritualmente, através do malicioso processo do embranquecer a pele negra e a cultura do negro” (NASCIMENTO, 2016 [1977] p.49-50 [grifos do autor]).

Sabemos que no âmbito filosófico, destaca-se a noção epistemológica de desconstrução à perspectiva pós-estruturalista do filósofo franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004), que opera sobre os discursos e expressões dos sistemas de pensamento ocidental, uma constante interrogação de seus problemas, a qual não necessariamente se joga frontalmente a um conceito vulgar, mas com as repetidas questões, interroga-o aos seus limites, pondo a prova sua gênese[iv]. Essa desconstrução gera abertas, margens diante das quais os problemas postos podem ser recolocados ou reconstruídos. Deste modo, vemos a lógica de pensamento presente em O Genocídio do Negro Brasileiro, desenvolver-se em sentido semelhante, ponto a prova os Mitos intocáveis, para chegar a aberturas transformadoras. Estabelecer tal paralelo, significa que o pensamento e a ação negra, podem estar em consonância com as propostas críticas de origens distintas, desde que as mesmas sejam operacionais e contribuam com os propósitos de nossa revolução, como bem enuncia Abdias Nascimento, já nas conclusões deste trabalho.

Assim, diante desta lógica epistêmica, o autor compreende que a tese da democracia racial exalta um certo ser negro, mas para embranquecê-lo, não para reconhecê-lo, pois é parte de uma estratégia, via miscigenação e termos correlatos, que visa aproximar a nação-brasileira dos padrões culturais e estéticos brancos e europeus, sem tocar na noção de inferioridade da raça negra elaborada pelos eugenistas. Logo, o mito revela-se em tragédia – o genocídio – que permeia os crimes de violação e subjugação da mulher negra pelo homem branco, do passado ao presente, na busca por estabelecer os novos tipos sociais [o(a) mulato(a)], que caminham na estratificação sistemática de embranquecimento do povo brasileiro; a falsa democracia que incorporou políticas de imigração no período colonial e pós-colonial, com vistas a privilegiar os ingresso das populações europeias, para suprir supostas demandas do país; também, afirmou-se a presunção de que as pessoas de origem indígena e africana preferiam ser rotuladas de brancas, em benefício de sua inserção na estrutura social, uma imposição que levou inclusive ao extermínio de dados sobre a escravidão no Brasil e retirada das categorias – negros e indígenas dos censos oficiais, por muito tempo.

Ainda, Abdias Nascimento destaca como a influência da cultura africana no Brasil, foi abordada de acordo com os destacados ideólogos da democracia racial, tais como Gilberto Freyre (1900-1987) e Pierre F. Verger (1902-1996), segundo sua visão. Tais autores se utilizam de expressões como “sobrevivência” dos traços culturais africanos e “infiltrações” africanas, na religião, na culinária, na música, na escultura e pintura de origem europeia, como demonstração da essência não racista e harmoniosa da civilização brasileira. Em realidade, segundo Abdias, as expressões “sobrevivência” e “infiltração” evidenciam a natureza subterrânea e a condição marginal da cultura africana e de seus descendentes no Brasil, do contrário a civilização brasileira que diz respeito à sua fração branca, nunca aceitaria a contribuição negra, caso ela não se apresentasse como disfarçada e clandestina.

Não obstante, o autor destaca que a formação cultural afro-brasileira se constituiu pelas forças da rejeição e resistência do povo africano em sua diáspora. Assim, situa o papel do banzo, também conhecido como “a doença da saudade” da terra e da vida livre em África, que acometeu e retirou as forças vitais de uma ampla população negra escravizada. Somente diante dessa alta taxa de mortalidade negra escrava, é que se forçou aos senhores permitir ao povo negro entoar suas manifestações culturais, muito restritamente em domingos e dias santos[v]. Outro instituto da democracia racial e da consequente presença cultural negra no país, residiria sobre a teoria da saudável interação sexual entre as raças e a tendência ao intercasamento, a prova dessas relações seria o surgimento da mulata brasileira, símbolo de identidade e produto nacional. Em realidade, uma coisificação, produto da exploração sexual da mulher negra, violada em sua condição de ser. Por seu turno, apoiado em diversas pesquisas, também se revela o contraditório do intercasmento, visto que as mesmas demonstram como o branco excluiu o negro de seu círculo de convivência íntima – a família, contexto no qual o homem negro e a mulher negra só poderiam adentrar, pela porta dos fundos, como criminoso e como prostituta.

b) A formação social brasileira e seu estilo racista de ser

Do movimento epistêmico de desconstrução emerge na obra em tela, uma concepção fundamental acerca da formação social brasileira e seu estilo racista. Assim, o autor de O Genocídio postula:

“Tudo era de origem europeia, como agora quase tudo vem dos Estados Unidos. O país obtivera em 1822 uma independência apenas formal, permanecendo sua economia, sua mentalidade e cultura, dependentes e colonizadas” (NASCIMENTO, 2016[1977] p.82 [grifos do autor]).

Essa concepção nos remete a uma interpretação da formação social brasileira que leva em consideração o que contemporaneamente denomina-se de colonialidade latino-americana, conceito que segundo o sociólogo peruano Aníbal Quijano (1928-2018), extrapola a noção de colonialismo pois, abrange um sistema de relações de poder que permanece e se aprofunda, mesmo diante das independências formais. Logo, a colonialidade se funda na imposição de uma classificação racial/étnica da população e cujas relações de poder operam nos diversos planos, âmbitos e dimensões, tanto materiais quanto subjetivas da existência social. Nesse processo, as relações sujeitam-se aos capitais no âmbito econômico; à família burguesa, ao patriarcalismo no que concerne as relações de gênero e sexualidade; ao euro-“norte”-centrismo, tomado como regime de produção da subjetividade e das formas de conhecimento; ao Estado-nação e suas articulações internacionais tornadas referencias no que tange aos regimes de autoridade[vi].

As referidas relações não são vistas como formas isoladas, mas amalgamados constituem a colonialidade que Abdias Nascimento enuncia em sua concepção e luta por sua libertação, desde a perspectiva Afro, tanto quanto a questão se põe nas lutas Indígeno-Americanas e Caribenhas. Neste âmbito, também é mister situar a contribuição do intelectual negro revolucionário, oriundo da ilha Martinica, Frantz Fanon (1925-1961), que ressaltou as relações entre o colonialismo, o racismo e a subjetivação negra, como modos de ver e viver o mundo. Portanto, mais do que a subordinação material de um povo, a colonização e o racismo, fornecem as formas como as pessoas são capazes de se expressar e se entender. Logo, descolonizar significa também a necessidade de descolonização das mentes.

Nesta medida, das especificidades da formação social colonizada-capitalista-racista, o autor de O Genocídio compreende que a democracia racial significa a metáfora que designa o estilo do racismo brasileiro. O qual não se confunde com um sistema jurídico de segregação racial conforme ocorrera nos Estados Unidos e na África do Sul, mas é um sistema tão perverso quanto, visto que,

“[…]institucionalizado de forma eficaz nos níveis oficiais de governo, assim como difuso e profundamente penetrante no tecido social, psicológico, econômico, político e cultural da sociedade do país. Da classificação grosseira dos negros como selvagens inferiores, ao enaltecimento das virtudes da mistura de sangue como tentativa de erradicação da “mancha negra” (NACISMENTO, 2016[1977] p.111 [grifos do autor]).

Para assegurar esse sistema de poder, as classes dominantes brancas não dispõem apenas dos governos, das leis, do capital, das forças armadas e da polícia, mas também de amplos instrumentos de controle social e cultural, tais como: o sistema educacional, as formas de comunicação de massa – a imprensa, o rádio, a televisão, bem como a produção literária e as formas de linguagem. Considero neste aspecto, haver um diálogo implícito entre o intelectual quilombista[vii] e o intelectual subalterno da região Sardenha – Antônio Gramsci (1891-937), pois as formas de exercício do poder branco, remetem a uma concepção de um Estado ampliado no Brasil, que recorre a não apenas à coerção, mas também ao consentimento subalternizador para sustentar a hegemonia[viii] da branquitude que nas palavras de Nascimento (2016[1977]), formam um imperialismo da brancura e do capitalismo que lhe é inerente, na formação social em questão.

Como resultado desses dispositivos, temos destruição do ser negro como pessoa, como ser criador e condutor de sua própria cultura, na medida em que é invadido em sua intimidade, em seu modo de autoanalisar-se, consequentemente em sua própria autoestima. Neste aspecto, estamos diante do que Fanon (2008 [1952])[ix], definiu como complexo psicoexistencial do ser negro frente ao racismo, no qual o ser sofre não apenas pela inferiorização econômica, mas pela epidermização dessa inferioridade. O que aliena o ser negro de sua condição de ser humano, transforma-o em uma zona de não existência, perdida em seu niilismo e aviltado pelos elementos brancos. Porém, no desfecho da obra O Genocídio do Negro Brasileiro, revela-se a luta pela saída desse complexo, a luta pelo reconhecimento do ser negro em si e na sua relação com outro. Desta forma, Abdias Nascimento demonstra como nos transformamos naquele ser de ação, reivindicado por Fanon (2008 [1952]), através das diversas formas de resistência, revoltas, movimentos sociopolíticos e manifestações culturais construídas ao longo da trajetória afro-diaspórica pela negritude brasileira.

Nesse sentido, o seu texto aborda, dentre outros processos, o papel do banzo, das revoltas escravas, das lutas e de intelectuais abolicionistas, tanto quanto destaca o legado quilombola da República de Palmares; também os movimentos como a Frente Negra Brasileira na década de 1930, na qual Abdias atuou, o Teatro Experimental do Negro fundado em 1944, fruto de seu próprio protagonismo, os primeiros Centros de Estudos e Pesquisas Afros, formados na Bahia, em São Paulo e Rio de Janeiro – a exemplo do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO), já na década 1970. Também, destaca o papel do movimento de mulheres negras, as manifestações culturais afro-brasileiras que emergem neste período e o amplo processo de formação do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial em 1978 (atualmente MNU).

c) Novos horizontes de sentido como resposta ao genocídio

Portanto, de sua epistemologia crítica, desconstrutora dos Mitos, tanto quanto da construção e reivindicação dos movimentos e manifestações afro-diaspóricas no Brasil e no mundo, emergem novos horizontes de sentido – expressão que retomamos de Quijano (2007)[x] e que designa os novos imaginários sociais, a recuperação das memórias históricas e saberes frente a descolonização, sintetizados pelo intelectual quilombista na proposição de um novo país, uma nova formação social multirracial e multicultural, que pressupõe um pensamento em ação, um saber crítico e revolucionário que atualize os valores negros e africanos, somados aos valores de outros espaços-tempo, desde que possam contribuir para as necessidades da Revolução Africana. Trata-se, portanto, do delineamento de um projeto civilizatório para além das fronteiras territoriais e epistêmicas do Brasil, a ser protagonizado pelos africanos e seus descendentes na diáspora.

“Devemos nós, africanos e seus descendentes, enfatizar nossa capacidade de agir no projeto deste mundo atual, o de modelar a civilização futura, aberta a todos os eventos e expressões da existência humana, livre de exploradores e explorados, o que resulta na impossibilidade de haver opressores e oprimidos de qualquer raça ou cor epidérmica” (NASCIMENTO, 2016 [1977] p.171 [grifos do autor]).

Porém, ciente da inviabilidade imediata desta revolução popular e democrática, em seu país, o fundador do Teatro Experimental do Negro, dirige-se as autoridades brasileiras através do Colóquio-Festac’77, elaborando um conjunto medidas concretas, segundo os objetivos do evento, que apontaria recomendações a ser implementadas nos países representados. São 17 pontos enfatizados no capítulo XV (conclusão do livro, que equivale as proposições de Abdias ao relatório final do Colóquio-Festac’77), os quais constituem um verdadeiro programa de ações afirmativas, abrangendo a valorização, a reparação sociocultural e a construção de políticas de equidade, que se estendem desde a educação, a habitação e o trabalho, até a preparação da população negra para assumir o exercício de liderança política do seu país e sua inserção nos quadros dirigentes. Sugere inclusive novas relações internacionais, onde propõe a adoção de políticas multilaterais entre o Brasil e os países africanos. A leitura dos pontos muito instigante!

Porém, infelizmente, o reconhecimento das questões propostas, só foi “formalizado” tardiamente e em partes pelo Estado-Brasileiro, após as diversas lutas que confluíram para a postura signatária do país com as resoluções da III Conferência Interacional Contra o Racismo realizada em Durban (2001) na África do Sul. Deste modo, ainda estamos longe da implementação das propostas levantadas neste livro, tanto quanto, de tantas outras suscitadas pelos diversos movimentos e manifestações negras no país, ao passo que as diversas organizações e movimentos que compõem a Coalizão Negra Por Direitos atualizam tais reivindicações e horizontes de sentido, sobretudo no contexto dos necro-efeitos da crise pandêmica que a assola a população negra do país, na medida em que esta se defronta numa formação colonial-patriarcal-racista e capitalista, tão bem elucidada em O Genocídio do Negro Brasileiro.

Descansa em Orum Abdias Nascimento, sempre presente em nosso Ser-Pensamento!

(*) Professo Afro-Gaúcho, Dr. em Geografia pela Universidade Federal Fluminense

Notas:

[i] Ver: FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. Difusão Europeia do Livro, 1972.

[ii] Ver: NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Perspectiva, 2016. 2aed.

[iii] Consultar: MBEMBE, Achille. Necropolitique. Raisons Politique, n.21, p.29-60, 2006.

[iv] Consultar: DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia. São Paulo: Papirus, 1991.

[v] Consultar: BASTIDE, Roger. Estudos Afro-Brasileiros. Perspectiva, São Paulo, 1973.

[vi] Ver: QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder y clasificación social. In: CASTRO-GÓMEZ, S.; GROSFOGUEL, R. (org.) El giro decolonial. Bogotá: Iesco-Pensar; Siglo del Hombre Editores, 2007. p. 93-126.

[vii] É importante lembrar que Abdias Nascimento assina este trabalho como “um quilombola de Palmares”. Assim como o ensaio-manifesto político O Quilombismo (1980), constitui outra marca de suas contribuições para a militância antirracista e pan-africanista.

[viii] Sobre o conceito de hegemonia consultar: GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Maquiavel. Notas sobre Estado a política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.v.3.

[ix] Ver: FANON, Frantz. Pele negra, mascaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008 [1952].

[x] Ver: QUIJANO, Aníbal. Des/colonialidad del poder: el horizonte alternativo. Revista América Latina en movimento. 2007. Disponível em: <https://www.alainet.org/es/active/24123>.

Portal do Geledés
https://www.geledes.org.br/o-genocidio-do-negro-brasileiro-uma-releitura-para-espacos-tempos-de-pandemia/?gclid=Cj0KCQjw6NmHBhD2ARIsAI3hrM0iA-t9A3Sn5GFCxXRI_O-honbp-UPFNkhpIG6UzmY7NE7i014lKZwaApAFEALw_wcB

A união faz a força: expressões do mito familiar em famílias negras

Reimy Solange Chagas

 

Este livro tem por objetivo apresentar, refletir e problematizar sobre os aspectos psicológicos de famílias negras na contemporaneidade por meio do conceito de mitos familiares, e apreendê-los partindo do pressuposto de que as fantasias, crenças e valores que eles abarcam são atravessados por questões históricas, socioculturais, políticas e religiosas capazes de influenciarem a dinâmica familiar e atribuírem significados às histórias presentes e pregressas das relações familiares que configuram sua estrutura inconsciente.

Considerando a dimensão inconsciente e subjetiva de famílias negras, propõe verificar variações no mito familiar em seu aspecto menos favorável, sob a forma de segredos familiares, que por sua vez estão imbricados em segredos sociopolíticos do contexto social, cujos silenciamentos decorrentes enredam a intersubjetividade dessas famílias, pois são transmitidos psíquica e geracionalmente.

As vicissitudes do mito familiar se referem às variações que adquire esta transmissão psíquica: se ela é inter ou transgeracional. A partir destes conceitos, é possível explicitar o caráter da variação das heranças psíquicas veiculadas na cadeia geracional destas famílias: se são estruturantes como a etnicidade, ou então alienantes, como o trauma, o luto e o não dito.

Portanto, este livro visa fundamentalmente refletir sobre a subjetividade das famílias negras e problematizá-la por intermédio da escuta clínica da abordagem psicanalítica, buscando lançar luz sobre suas especificidades, organização de seus mitos familiares e possíveis efeitos psicológicos das marcas de sua história social familiar traumática.




Harriet uma narrativa abolicionista

 

3 de fevereiro de 2020

Harriet“, o filme responsável pela única indicação de uma pessoa não negra a um Oscar de atuação, na edição desse ano da premiação, trata-se do retrato adaptado da história da grande ativista abolicionista norte-americana, Harriet Tubman. Em seu quinto filme como diretora, Kasi Lemmons se propõe a contar a história da famosa ativista dos primórdios do movimento negro, a qual dedicou a maior parte de sua vida à libertação dos corpos escravizados, de 1850 até a sua morte, em 1913.


A proposta, por si só, de realizar uma cinebiografia de uma personalidade tão importante para o movimento negro mundial – e para o movimento pró direitos humanos como um todo – é incrível e digna de expectativa, sendo a escolha da atriz Cynthia Erivo (conhecida por dar vida à Celie Johnson, na versão musical de “A Cor Púrpura”, na Broadway) uma aposta inteligente. A trama é contada de maneira poética e artística, seja pelos momentos musicais ou pela bela fotografia, sendo a duração diminuta de duas horas e cinco minutos, incrivelmente, insuficiente.


“Harriet”- o filme e não a personagem – inicia-se com um conjunto dramático de cenas do passado e do futuro – visto que a protagonista tem visões resultantes de um traumatismo no crânio quando ainda criança – as quais misturam momentos de traumas escravistas, como a venda das irmãs de Harriet, com símbolos premonitórios. Nesse momento, a lenda Harriet Tubman, nascida no condado de Dochester, em Maryland, Estados Unidos, por volta de março de 1822, ainda era conhecida como Araminta “Misty” Ross Tubman. E conforme o filme mostrará mais tarde, a ativista abandonou seu nome de batismo ao alcançar a liberdade na Filadélfia. Portanto, “Harriet” é o nome que marca a sua liberdade, em 1849, quando escapa. 



Canções como ferramentas de fuga e a utilização divina em “Harriet”

                                        Harriet Tubman (esquerda) e a atriz Cynthia Erivo.


Sabe-se que o canto era um elemento importante aos negros escravizados, especialmente nos Estados Unidos, e este se mostra logo no início do filme. Quando segue para sua fuga, Misty (Cynthia Erivo) se utiliza do canto para avisar aos seus familiares que está partindo sozinha, sendo a canção uma forma de codificação entre os negros acerca de planos de fuga e de efetivas execuções de tais planos. Contudo, em nenhum momento do filme o uso do canto para tal fim é explicado; parece, na verdade, que as músicas foram jogadas em meio à trama como um recurso narrativo mal colocado, o qual não aparenta ter nenhum sentido lógico a não ser para mostrar o talento de Erivo.


Em relação à Misty, particularmente, o canto se conecta com sua devoção absoluta à Deus. Devoção esta que é intensamente explorada na trama, sendo lembrada e evocada de maneira que chega a ser cansativa. As visões da protagonista são reconhecidas como sinais divinos por ela, criando-se uma fé praticamente inabalável. Ocorre que, apesar da crença de as visões serem sinais divinos, como pessoa não religiosa que escreve em um site que se propõe laico, é com estranheza e descrença que absorvi tal escolha narrativa de Kasi Lemmons.


Em um filme, mesmo que biográfico, é necessário, por vezes, “embelezar” fatos para torná-los dignos da cinematografia. Mas a fantasia narrativa de “Harriet”, criada para responsabilizar as fugas dos proprietários e dos caçadores de escravos a, unicamente, uma força divina extracorpórea, é desnecessária, para dizer o mínimo. A religiosidade da protagonista, visto que foi uma parte importante de sua vida e criação, tem um papel importante no filme, porém sua utilização foi levada ao extremo e quase levou a trama a desviar-se de sua verdadeira protagonista, Misty.


Cynthia Erivo e Janelle Monae em “Harriet”. (Foto: reprodução)


Nesse momento, todavia, após fugas e salvamentos bem sucedidos, o nome Misty havia sido abandonado de vez pelo nome Harriet. A figura tornava-se aquilo que conhecemos hoje: uma ativista e abolicionista negra que dedicou a sua vida à libertação de outros negros escravizados e à garantia do fim do regime escravocrata no sul dos Estados Unidos. Sozinha, fez 13 missões de resgate e libertou 70 escravos. Em meio a Guerra Civil norte-americana, guiou o ataque a uma balsa no rio Combahee, o qual libertou, aproximadamente, 700 escravos.

Diz-se que a verdadeira Harriet bradou “Liberdade ou morte; se eu não posso ter uma, eu terei a outra“, e é esse espírito que moveu a ativista na luta à libertação de negros escravizados por anos, até a sua morte. A Harriet retratada no filme, e este relato não foi encontrado em fontes externas, até ameaça seus companheiros negros com sua pistola para à fuga, o que reforça o imediatismo de liberdade buscado pela protagonista. É curioso ver o desespero armado de Harriet, e com certeza surpreendente, mas não nos cabe ignorar a urgência enfrentada pela personagem nos momentos de fuga, nos quais a morte era a única opção de liberdade mental caso a corpórea falhasse. Harriet estava em uma posição de liderança, ainda vista com maus olhos e estranheza quando ocupada por uma mulher negra, na qual necessitava demostrar força, controle e certeza extremas, não cabendo nenhuma hesitação.

Há forma certa para se fazer um filme histórico?


Elenco e diretora Kasi Lemmons nos bastidores da gravação de “Harriet”. (Foto: reprodução)

Foi impossível, ao longo do filme, não compará-lo com o mais recente exemplo de “filem escravocrata”, o vencedor do Oscar de Melhor Filme de 2014, “12 Anos de Escravidão”. Ambos os filmes se passam, em parte, mais ou menos na mesma época, isto é, no período de 1840 a 1850. 

No filme de Steve McQueen, também uma cinebiografia, a contação da história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é feita de maneira mais dramática, carregada e silenciosa. O peso do trauma vivido pelo protagonista – de livre para escravo – e dos demais escravos retratados é construído de forma cadencial e zelosa para garantir que a telespectadora sinta, na medida do possível, as emoções de cada personagem. Nesse caso, não é uma história de esperança e superação, mas de dor profunda e latente desespero por não sabermos o fim real das personagens.

No caso de “Harriet”, apesar do contexto histórico ser igualmente pesado quando consumido, ele parece, de certa forma, mais leve. As grandes cenas de confronto entre Harriet e o mundo, a musicalidade deslocada e a obsessiva e estranha caçada de Harriet pelo filho de seu proprietário legal falecido – parece que só fizeram um papel qualquer para pôr o namorado da Taylor Swift – fazem com que o filme perca, pela forma com que tais elementos foram dispostos na trama, a sua merecida seriedade. Como já fez “A Cor Púrpura”, por exemplo, é possível mesclar a narração de uma história série com leveza e até partes humorísticas sem perder o rumo, mas não foi o caso visto em “Harriet”.


Cena de “A Cor Púrpura” (1985). Foto: divulgação

Ao fim do filme, embora as atuações, em particular, não devam ser responsabilizadas, parece mais que assistimos à um vídeo clipe, com o contexto jogado sem muitas explicações e às pressas. O longa é carregado nas costas por Cynthia Erivo; ela, em meio a um elenco diverso e talentoso, foi a única que conseguiu se destacar e se livrar da proposta narrativa fraca trazida por Lemmons. Ao depender de momentos narrativos, e não da trama inteira, o filme parece mais uma série longa demais. Portanto, com uma diretora e roteirista negra, falando de uma heroína negra, é triste ver como a trama parece incompleta e deficiente. 

Os trabalhos primorosos em iluminação, fotografia e sonoplastia passam despercebidos em meio à correria narrativa da trama. Nem mesmo a voz radiante e simbólica de Nina Simone, cantando sobre características presentes nas fugas de escravos, consegue nos trazer de volta ao envolvimento pleno na trama. 

#Oscarsowhite 2020 (mais do mesmo da Academia)

Como dito no início, “Harriet” é o responsável pela única indicação de uma pessoa não branca – já que Antonio Banderas é, sim, branco e europeu – a edição do Oscar de 2020. Não se questiona, por certo, o merecimento da atriz à indicação, mas sim o fato dela ser a única mulher não branca indicada em um ano no qual a diversidade cinematográfica falou mais alto em qualquer sala de cinema.

O ano de 2019, apesar de seus inúmeros desapontamentos, foi o responsável pelo aparecimento de muitas e diversas histórias disponíveis ao grande público. “As Golpistas”, “Parasita“, “Us“, “A Despedida”, “Atlantique“, “Adoráveis Mulheres“, só para citar muitos alguns. Impressiona – ou, na verdade, não – que ainda tenhamos que apontar a falta de diversidade alarmante de grandes premiações norte-americanas e europeias, como o BAFTA. No ano, apenas à “Parasita” foi permitido suprir, apesar de não expressamente falada, a “cota diversidade” das premiações ocidentais, ignorando-se os demais excelentes trabalhos de pessoas não-brancas.


Cena de “Harriet”, longa de Kasi Lemmons. (Foto: reprodução)
https://deliriumnerd.com/2020/02/03/harriet-critica-filme-kasi-lemmons/

Trabalho Final - Música

 1) Cálice - Chico Buarque; 2) O Bêbado e o Equilibrista - Aldir Blanc; 3) Disparada - Geraldo Vandré; 4) Admirável Gado Novo - Elba Ramalho...